Entrevista

Profissional C: Há quantos anos é professor?

Professor Joaquim: Já sou professor há 14 anos.

Prof. C: Em vez de ser político, por que razão decidiu ser professor?

Prof. Joaquim: Em primeiro lugar, ser político não é uma profissão; ser professor é. Sempre achei que devemos deixar às gerações futuras uma mensagem e entendi que o local onde eu melhor poderia fazer a diferença seria numa escola como a do Curral das Freiras. Esta escola iria ser inaugurada e era importante que ela tivesse relevância para a sociedade.

Acho que a nossa escola deve ser mais humana, ou seja, entendo que a escola é um espaço de aprendizagem, mas também de afetos. Por isso, os alunos e os professores devem interagir com os alunos de uma forma mais direta. Um professor é um fazedor de sonhos; os políticos, no geral, são mentirosos. Por isso, escolhi ser professor.

Prof. C: Gosta de trabalhar no Curral das Freiras?

Prof. Joaquim: Digo com orgulho que me sinto um filho desta terra. Gosto muito desta terra. Aprendi a amar os cantos, recanto e encantos do Curral das Freiras. Gosto das pessoas desta freguesia. Por isso, já tive a oportunidade de sair para outra escola, mas optei por ficar aqui.

Prof. C: Por que razão decidiu candidatar-se a Diretor da escola do Curral das Freiras?

Prof. Joaquim: Eu não me candidatei. Em 2009 havia um problema: a escola do Curral iria ser inaugurada e quem é que quereria ir para essa escola? Eu era professor da Universidade dos Açores e, numa conversa com o Dr. Rui Anacleto, na altura o Diretor Regional de Educação, percebemos que as escolas em meios rurais como São Jorge ou o Curral das Freiras enfrentam esse problema de cativar as pessoas. Ness altura senti que o Curral das Freiras era um lugar onde eu provavelmente gostaria de desenvolver a minha atividade. Quando chegou a altura de avançar com um nome para a direção da escola, perguntaram-me se eu estava interessado e eu respondi que, se o desafio era fazer daquela escola a melhor da Madeira, então aceitava. Portanto, não me candidatei; fui nomeado.

Prof. C: Acha que ser diretor no Curral das Freiras é diferente de ser diretor noutra localidade?

Prof. Joaquim: Entre ser diretor da escola do Curral das Freiras, diretor da escola Jaime Moniz ou outras escolas urbanas há muitas diferenças. As escolas rurais têm outras particularidades. Eu conheço todos os alunos, os pais de todos os alunos e todos os professores. Não se pode pedir o mesmo ao diretor de uma escola grande.

Prof. C: Gosta do cargo que ocupa?

Prof. Joaquim: Gosto particularmente de trabalhar em equipa. As pessoas acham que o diretor é o dono da escola. Eu discordo. Acho que o diretor é o primeiro funcionário. É ele que tem a função de proteger os alunos, tem a função de descansar os pais, tem a função de trabalhar com os seus pares e tem de responder a todos, desde o Mateus, da creche, até ao Arsénio, do décimo segundo ano, que quer ir para a universidade.

Já fui a casa de algumas pessoas buscar alunos para regressar à escola, porque eu quero uma coisa para os meus alunos: quero que eles acreditem que conseguem. Por isso, gosto do cargo que ocupo, mas há casos de insucesso que me fazem sofrer.

O que quero continuar a fazer é manter a esperança e o sonho dos alunos e a tranquilidade dos pais e professores.

Prof. C: É mais fácil lidar com os professores, com os alunos, com os funcionários ou com os pais dos alunos?

Prof. Joaquim: O mais fácil ou aquilo de que gosto verdadeiramente é de lidar com os alunos. A escola é um espaço social e de emoções. Por mais rebeldes que os alunos sejam, eles são sempre a janela de oportunidades e a razão da sua existência.

Os adultos às vezes são mais complicados. A pessoa A ou B fala de C e D, mas não lhes perguntou a razão de ser de determinado facto. Não quis saber das razões do outro. Por isso, nem sempre é fácil lidar com todos.

Prof.C: Quais os maiores desafios/dificuldades prevê ter de enfrentar nos próximos tempos?

Prof. Joaquim: A grande dificuldade que os portugueses enfrentam é a crise económica, que tem obrigado as pessoas a sair da sua terra e tem mantido os que ficam em situações precárias, como os professores. Uma sociedade que não valoriza o trabalho dos professores é uma sociedade doente. É preciso dar tranquilidade às pessoas para trabalharem, para viverem felizes e criarem famílias. Enfrentaremos grandes problemas se os jovens perderem a esperança, se os adultos perderem a razão de viver e se os idosos perderem a sua dignidade no fim das suas vidas.

Prof. C: Que projetos tem para a escola do Curral das Freiras para os próximos anos? Prof. Joaquim: Tenho o sonho de a Escola do Curral vir a ser uma das melhores do país, de os alunos que entram na creche chegarem à universidade, de esta escola poder tornar-se num centro de formação para adultos e de haver mais oportunidades em termos culturais e desportivos. Logo, os projetos vão no sentido da formação, da cultura e do desporto. Para concretizar este sonho é preciso mostrar aos alunos, aos pais e à comunidade que podem confiar na escola.

Prof. C: Que conselhos nos pode deixar hoje?

Prof. Joaquim: O conselho que vos deixo é que confiem na vossa juventude, que não procurem o caminho mais fácil, que tenham a capacidade de olhar para o vosso futuro próximo de uma perspetiva positiva, que confiem em vocês e que se respeitem sempre. Cavalguem os vossos sonhos! Acreditem! Ousem acreditar. Ninguém pode viver os vossos sonhos por vós. Nunca desistam. Por pior que vos pareça a tempestade, o raio de sol vai chegar. Não parem de sonhar!

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